
A pedra do caminho pode ser um trampolim
Hoje minha intenção era escrever sobre as mil vestes do amor. O interesse pelo tema surgiu a partir de uma conversa entre amigas. Falávamos sobre as possibilidades e particularidades das relações amorosas na fluidez da modernidade: amor livre, relações abertas, trisal, entre outros. Acontece que, como já nos alertava Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. De minha parte, acrescento que a pedra é estadunidense. Ao chutá-la, perdi o foco, o intento e acabei mudando o rumo da prosa.
Pretendia abordar o amor, mas fui atravessada pela necessidade de falar sobre exploração, chantagem e disputa de poder nas relações, sejam elas amorosas ou comerciais. É curioso e cansativo perceber que quase nunca se pode relaxar no trato com o outro. Uma espécie de vigília constante das fronteiras se faz necessário. Tudo isso porque, se o outro percebe insegurança, dependência emocional ou financeira ou amor incondicional, em geral, faz pouco caso, abusa e, muitas vezes, viola com escrotidão regras indispensáveis ao bem-viver.
Isso se aplica a todo tipo de relacionamento, seja entre pessoas ou nações. No final das contas, o que está em jogo é o desfile de um narcisismo estéril vestido com um casaco de pele feito de perversões.
Basta que um tenha vantagem, recursos, armas e importância para começar o jogo covarde de quem acredita possuir as melhores cartas.
É ali no altar dos que julgamos fortes, geniais ou insubstituíveis que o amor-próprio sucumbe, a cabeça abaixa e a morte lenta da autoestima começa.
O amor-próprio, a demarcação dos territórios do Eu, do que é meu por direito, é o único tratado que não podemos permitir que fraqueje.
A soberania da existência, a independência do ser ou de uma nação é inegociável.
Sem trégua, sem papo, sem chance de colocar quem quer que seja acima de nós a ponto de validar a tirania seja de quem for.
Lutemos por relações de respeito, colaboração, igualdade de direitos e parceria.
Façamos das tentativas de vigarismo, de abuso, de extorsão um trampolim para a liberdade.
Sinto muito, no meu EU não cabe a invasão megalomaníaca de um A.













